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Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

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16 de Março, 2021

Irmãos

Inês

Eu tenho um irmão e uma irmã, sou a do meio. Durante a maior parte da minha vida fui a irmã mais nova mas depois eis que nasce um novo rebento, e apesar de ser apenas "metade" irmã, ocupou esse lugar por inteiro e passamos a ser três. Não foi de propósito mas a verdade é que as nossas diferenças de idades são de exatamente 14 anos. Eu nasci e o meu irmão tinha 14 e a minha irmã nasceu quando eu fiz 14. Cada um cresceu quase como filho único, na verdade. Eu cheguei a criança e o meu irmão andava na faculdade. Eu ia muitas vezes com ele para os convívios com os amigos e para o Porto onde estudava mas isso não é a mesma coisa que crescer junto, partilhar brinquedos a toda a hora, partilhar a atenção dos pais, etc. Nada disso. Diria que a maior parte do tempo brinquei sozinha e tudo ok com isso. A minha irmã está "pior" pois apenas vive com os pais mesmo e só estamos com ela uma ou duas vezes por semana.

Olho para a minha irmã creio que da mesma forma que o meu irmão olha para mim. Não consigo pensar um bocado mais nela sem chorar de emoção. É uma luz incrível, uma criança espetacular. Tenho um amor por ela enorme. É a melhor coisa que resultou do divórcio dos meus pais, de longe. Ela tem que ser feliz. E o meu irmão também. Os meus irmãos são as pessoas do mundo inteiro que eu desejo a felicidade acima de tudo. Partilhamos as mesmas circunstâncias, os mesmos pais, algumas dificuldades semelhantes. Temos personalidades muito diferentes, sobretudo eu e o meu irmão que já somos adultos formados. Já houve tempos em que nos demos mal, períodos de separação, outros de despiques e discussões mais frequentes, outros em que nos aproximamos imenso. Das coisas mais tristes que já ouvi na vida foi ele dizer-me uma noite ao telefone "Inês eu não confio em ti mas tu podes confiar em mim". Tinha eu praí onze anos, vivia sozinha com a mãe frágil e instável, poucos meses após o divórcio, era uma criança atirada aos leões, não sabia nada da vida. Além da questão óbvia de que a confiança é algo mútuo, aquele "não confio em ti" bateu-me de forma que até hoje me dói. Apesar de ter mais 14 anos do que eu, nem ele sabia o que estava a acontecer. Eu era criança à toa e ele era jovem adulto à toa numa realidade que nenhum de nós escolheu.

O meu irmão tem uma personalidade perfecionista, meio desconfiada do mundo em geral, com grande sentido de responsabilidade e muito exigente com ele próprio e com os que o rodeiam. Só percebi há umas semanas que ele era tão exigente, e sempre o foi, que não confiava na educação e no acompanhamento que os nossos pais me deram. Para ele há sempre defeitos e por mais pequenos que sejam ocupam o cenário todo. Ele diz o mesmo em relação à pequenita hoje em dia e, portanto, juntando algumas peças, percebi que essa é origem para o lado tão protetor dele em relação a mim e em relação a ela. Adicionando a sua personalidade, temos aqui uma receita complicada. Isto porque as consequências são graves. Ele eleva-as para um nível grave. O lado overly protective dele e a atitude de pai são uma coisa quando somos crianças. Mas quando nos tornamos adultos, tomamos decisões, avançamos em direções que não são as que eles querem e que idealizam para nós, torna a relação numa desilusão. Para eles. Não para nós. Porque nós (os mais novos) somos colocados numa posição injusta. Devemos-lhe muita coisa, agradecemos por tudo, parte de nós é resultado e reflexo deles, dos anos de crescimento. Porém há as experiências individuais, há feitios e personalidades à mistura, há um quê enorme que é só nosso.

Eu não sei como serei quando for mãe e, até, se algum dia esse momento irá chegar. No entanto, aquilo que entendo da parenthood e de irmãos mais velhos, como é o meu caso, é que o processo de educar, formar e contribuir para o crescimento de alguém, inclui nas últimas fases dar asas para os pequenos voarem e confiar que o nosso trabalho está feito e bem feito o suficiente para que possamos estar descansados quando eles seguem o seu caminho. Confiar. É exatamente isto. Sempre que a minha mãe não aceita isto e aquilo, sofre com uma saída ou outra, é reflexo da desconfiança dela tanto para com a minha pessoa e as minhas escolhas como para com ela própria no ato de me ter tornado o que sou hoje.

E quanto ao meu irmão igual. Se depois de uma discussão do alto dos seus 38 anos, a solução que encontra é abandonar, cortar contacto e afastar-se, e a única coisa que me diz é que está desiludido com aquilo em que me tornei e que não sabe lidar comigo... Eu não posso aceitar. Eu já não tenho 12 anos, nem 15 nem 18 sequer. Eu tenho quase 25 anos, sou uma mulher forte, que pensa, decide, opta, arrisca, aventura-se, vai sozinha, vai acompanhada, que comunica, que reflete, que faz asneiras, que as corrige, que fica triste, que fica feliz, que tem amigos, um emprego, que vive aqui ou ali, que tem medo às vezes e noutras nem por isso. Eu não tenho que enumerar nem que andar com um post-it na testa a relembrar tudo o que já fiz, todos os desafios, todos os trabalhos, todas as aventuras, todos os objetivos cumpridos. Se eles não se lembram que eu já tenho 25 anos e que já tenha uma vida e uma lista de feitos e de skills que estão permanentemente a colocar em causa... Honestamente entristece-me mas é o que é. Não está sob o meu controlo alterar essa perspetiva defeituosa. Secalhar eu posso ter 25, 30, 40 e 50 anos que ele vai sempre olhar para mim como a irmã mais nova, que não sabe nada da vida. De facto, tenho pena mas talvez eu também vá sofrer do mesmo mal em relação à minha irmã. Se assim for, eu espero lembrar-me de vir ler este post e relembrar-me de que quero estar lá para a minha irmã sempre, sempre, sempre e espero mesmo que ela me queira lá sempre, sempre, sempre. Serei tudo o que ela precisar. Agora para estar juntas, partilhar brincadeiras, jantares, dias de sol, piadas, danças e joguitos de tablet. Mais à frente, partilhar pensamentos de menina, aquelas inseguranças típicas, as novelas da escola, os grupos de amigas e os rapazes. E, em algum momento, sei que ela irá avançar sozinha e escolher caminhos. E espero que ela se sinta uma mulher forte o suficiente para o fazer de forma segura com a confiança que também espero conseguir passar-lhe. Não sei será fácil mas espero ter sempre a cabeça no sítio certo para o fazer. Porque acima de tudo, eu quero é que eles sejam felizes. São as minhas pessoas. E ter irmãos, pode ter momentos maus, mas é mesmo das melhores coisas do mundo e é o melhor presente que os meus pais alguma vez me deram.