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Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

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16 de Outubro, 2021

Crescer na empresa

Inês

Em primeiro lugar, acima de tudo e por muito cliché que pareça, penso praticamente todos os dias na sorte de ter nascido neste cantinho do mundo e no seio da família onde surgi. Foi pura sorte, totalmente aleatório tanto quanto sabemos e não fiz nada para o merecer. A minha família, por muito disfuncional que seja, deu-me bases para poder estudar e começar a minha vida. Ainda que o meu foco tenha que ter sido divergente em muitos momentos e que em diversas situações eu tenha que ter segurado a família de várias formas (como ainda faço), foi me possível fazê-lo. E foi-me sempre possível voltar a focar em mim e levar a cabo aqueles objetivos que tinha em mente. Sejam viagens, experiências, compras... Nunca me anulei mas também sinto que nunca tive a vida no geral facilitada. Ou por outra, vejo à minha volta vidas muito mais facilitadas. Mas bem, também vejo outras muito mais difíceis. Não me interessa estar a medir desgraçadas. Sinto que se jogasse aquele jogo dos passos em frente que retrata as desigualdades sociais e o ponto de partida de cada um, diria que iria estar a meio do percurso provavelmente. Pais divorciados, mãe com problemas de saúde, desemprego quase sempre presente... Enfim. Talvez problemas demasiado vulgares na sociedade total, pelos quais passei e ainda continuo a passar. Mas no meio de tudo há sortes que não se ignoram. E é impossível não considerar o fator sorte pois apesar de haver trabalho envolvido, também sinto que "caí em graça". Entrei para uma empresa na qual não tinha qualquer ambição de ficar para futuro. Só queria trabalhar, ocupar o tempo e ganhar dinheiro naquela fase. Lembro-me de logo no início, me ter candidato a dois anúncios de emprego que mais tarde vim a saber serem de duas sociedades da minha empresa. E foi por causa do segundo anúncio que falaram comigo e me questionaram se eu ainda estaria interessada na primeira vaga. Disse que sim claro, mas creio que o saiu dali foi a minha vontade de trabalhar, fosse no que fosse (sendo que um dos anúncios era para empregada de limpeza). Comecei muito devagarinho, primeiro um estágio do Santander onde ganhava 500€ certos e pouco havia para eu fazer. Depois um estágio do IEFP onde ganhava cerca de 600€ e depois veio o contrato que para minha grande sorte foi-me dada a oportunidade de continuar por 700€. Pode parecer ridiculamente pouco mas, acreditem, no seio da minha empresa, foi uma vantagem que me estavam a dar porque outros estagiários com quem convivi foi-lhes oferecido apenas o salário mínimo. O meu trabalho foi sendo bom e fui crescendo, acumulando funções e responsabilidades e trabalhando cada vez mais próxima da Administração. Entendo agora que trabalhar próxima da ADM é bom porque traz exposição e a exposição coloca-nos num sítio onde podemos mostrar mais facilmente o nosso bom trabalho. Por outro lado, também se fizermos asneira, vê-se logo. Mas, se tivermos como princípio, sermos bons profissionais, a exposição é uma vantagem. Nunca pensei nisto desta forma, só agora recentemente, mas creio que faz sentido. No início, corava quase todos os dias com as interações sociais habituais. Era mesmo uma menina, um bebé ali. Fiz 22 anos ali, depois 23, 24 e este ano 25 anos. Já mudei a minha secretária de gabinete quatro vezes (mais que muita gente!). Já conheço os cantos todos à casa e sinto que é de facto uma casa para mim. Entro ensonada às 8h30 mas rapidamente me coloco em sentido e adoro quando vou fazer a visita diária ao armazém e brinco com eles todos (fica fácil quando também percebo que eu agora sou das que trabalha há mais tempo ali - é verdade, há alguma rotação e a empresa cresceu muito nos últimos quatro anos). Também sou várias vezes atingida pelo bicho da procrastinação, não me apetece fazer nada e deixo acumular uns quantos emails mas depois volto ou trabalho em casa e as coisas aparecem feitas. Já fui uma colega menos fixe porque às vezes dá-me uns vaipes e não gosto quando trabalho pró boneco ou quando colocam as minhas coisas em causa e por esses motivos já enviei emails menos simpáticos e já tive que enfrentar colegas. Hoje já não o faço porque entendi que apesar de toda a razão que possamos ter num caso específicio e em vez de apontarmos o dedo a este ou àquele, faz parte de ser bom colega, ignorar simplemente e voltar a enviar a informação sem "conforme já tinha sido dito no dia X". As pessoas crescem e sei que tenho defeitos. No geral, o que me surpreende, é que não acho que sou algo de especial para estar a ter um percurso tão positivo lá na empresa. Acho que sou mesmo normal e até vejo pessoas com grande potencial que não se deixam procrastinar tanto quanto eu e trazem contribuições muito boas. Eu não saberia ser de outra forma, até me critico muitas vezes e sem dúvida que sou demasiado insegura muitas vezes, com falta de uma assertividade que me levaria mais longe. Porém, e como outros já disseram, caí em graça. Depois de há um atrás ter entregue a minha carta de despedimento em busca de novas oportunidades, voltei a atrás e as oportunidades que eu queria vieram ter-me aos pés. Foi-me dobrado o salário, foi-me fornecido um telemóvel, outras funções, agora uma assistente, um portátil e daqui a umas semanas um carro. E isto aconteceu tudo em menos de um ano e numa empresa tradicional e familiar de 150 pessoas, onde apenas uma dúzia têm portátil e apenas três têm carro. E a mim vai-me ser alocado um carro para uso pessoal e profissional. Eu que tenho o carro mais velho da empresa, o citroen saxo de 96 todo estragado que estaciono sempre no sítio mais longe para ficar fora de alcance. Eu que sou das mais jovens da empresa. Que há tanta gente ali há dez, vinte, trinta e quarenta anos e que não estão no meu nível salarial nem têm portátil nem carro. É para trabalho, eu sei. E vem com um elevado peso de responsabilidade. Mas é impossível para mim abstrair-me do quê de desigualde que isto representa lá na empresa. Para outros e noutras empresa, talvez isto não seja caso algum e ter telemóvel e portátil seja das maiores banalidades. Mas para mim não é. E muito menos carro. É como se fosse um posto, um objetivo, irreal de alcançar nestas circunstâncias, com esta idade e tempo de casa. Um carro novo. É tão fora de cena para mim que recebi a "notícia" com estupefação e muita alegria. Quando cheguei a casa e depois de ver se a minha mãe estava bem, disse-lhe logo a novidade ali à porta e ficamos as duas tão contentes mesmo como se fosse grande objetivo alcançado. E nem era objetivo porque não pensei nisso sequer, não estava no horizonte. O reverso da medalha é saber se efetivamente estarei à altura do que me está a ser proposto. Tenho que estar. Tenho que fazer por isso, tenho que evoluir, ser melhor e trazer para cima da mesa as melhores contribuições. Tenho que estar mais à frente, ser mais interventiva e mais preventiva. Será um grande desafio, tanto o trabalho como lidar com os colegas. Até porque o mau disto na minha empresa é que nada é transparente e depois abre-se o lugar a dúvidas e falatórios que minam o ambiente. Mas entendo-os também porque simplesmente não é justo. E apesar de estar do lado previligiado, não é fixe trabalhar há anos e anos num sítio com dedicação e profissionalismo e depois vir uma pessoa novita e levar mais para casa. Entendo perfeitamente mas eu não pedi nada a ninguém, ali dentro nunca pedi. O sistema é injusto. E, neste caso, eu calhei do lado dos afortunados.