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Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

25 de Fevereiro, 2022

Mais do que Blue 3.0

Inês

Ontem quando logo de manhã vi as notícias da invasão da Rússia fiquei imediatamente com uma má sensação. Que raio está a acontecer. Passei o que dia mal com uma angústia constante. Medo. Overwhelmed com as notícias sobre o assunto. Fui à aula de boxe e depois de alguns impactos e provocações dos outros (porque apesar de gostar muito daquilo, falta-me a força, a "convicção" e parece que deixei de evoluir aos olhos deles), a dor física abriu os portões à dor emocional e tive que sair antes do fim entre gestos ao intrutor. As lágrimas tinham que sair. Eu estava a tremer. Foi a primeira vez que isso aconteceu, desta forma. Eu sinto muitas vezes que tenho que chorar, sobretudo naquela altura do mês quando há uma sensibilidade acima da média e qualquer coisa me faz emocionar. Na maior das vezes é no carro ou em casa, mas não com outras pessoas. Foi um limite atingido em frente a outros. Já me achavam fraca, agora vão achar ainda mais. E isso chateeia-me um bocado, admito. Mas não tenho que lhes provar nada, só a mim mesma. Já fiz tantas coisas na vida e parece que tenho cada vez mais medos que antes não tinha. Tenho sentido muito isso. Não sei se era por pensar de menos ou é das minhas companhias atuais (a Luisinha é a pessoa que conheço que tem mais medos mas a um nível de doença mesmo). Mas enfim, nada disto importa perante as imagens que se viram ontem. Eu própria estar a falar disto é absolutamente ridículo à beira do que se passa nas terras que há umas semanas estavam tranquilas e hoje são palco de guerra. E guerras sempre aconteceram. Mais longe, menos vistas, que nos passam mais ao lado. Esta não conseguimos ignorar porque há uma sensação que podíamos ser nós. É uma posição muito hipócrita da nossa parte, na verdade. E ainda assim, é-me impossível deixar de sentir. E depois toda esta dimensão que as coisas alcançam nas notícias, na net, no twitter. Só isto importa neste momento. A nossa energia é toda sugada para ali e até procuramos mais. Dá cabo da nossa saúde mental e ontem deixei-me ir completamente. E depois deparei-me com um post no Instagram sobre estas pessoas "que sofrem" com a ansiedade consequente destas notícias, e etc. Não podíamos ser mais privilegiados, pois não? Até sinto vergonha de escrever este texto.

19 de Fevereiro, 2022

Sobre saber lidar com a sorte e a liberdade económica

Inês

No seguimento deste post, esta semana foi-me finalmente entregue o carro. Esta entrega mexeu bastante comigo e fez-me pensar sobre como posso eu lidar com isto. Chamo a isto, a sorte. Não sei o que fiz de tão diferente dos outros para adquirir uma vantagem que não lhes foi dada. A outros da minha empresa e outros da minha vida. Não tenho explicação que não seja a sorte. Desde que me tornei adulta que olho para a vida como se eu estivesse do lado da dificuldade. A família, a falta de dinheiro... Foram-me moldando e admito que foram várias as vezes que olhei com inveja para outros. Na parte do emprego, é inegável que tive sorte. Tenho pensado muito sobre se esta sorte compensa outras partes menos afortunadas da vida mas também não chego a um entendimento porque estou bem resolvida em relação a tudo no geral. Portanto, fico na mesma. Na empresa, sei que sou alvo de olhares, conversas de corredor e muitas bocas. Mas à minha frente só há silêncio. Um silêncio que denuncia um elefante na sala. É desconfortável. Pelo menos, eu sinto um grande peso de desconforto por ter sido colocada nesta posição perante os outros. Internamente, estou felícissima. O auge dessa felicidade foi hoje quando finalmente consegui conectar o bluetooth do telemóvel com o carro e depois de muitos cliques e tentativas finalmente o spotify começou a dar nas colunas do carro. E , que sorte!, era a voz da minha Shakira que inundou o espaço e de repente dei por mim em altos berros a cantar as músicas da minha infância num carro que dizem ser meu e é um upgrade GIGANTE em relação ao meu antigo. O meu Saxo de 96 em azul berrante que nos primeiros dias ficava junto dos outros carros e mesmo atrás das máquinas da administração e que depois começou a ficar no estacionamento da empresa vizinha para ficar escondido. E, imaginem, há três semanas ia pegar no carro e não pegava. Quando fui a ver, tinham-me roubado o catalisador. Qual poesia da vida! Fiquei sem carro a três semanas de receber o novo! Um carro que durou nas minhas mãos praticamente seis anos, que tem a minha idade e que me deu tantas alegrias. Agora avizinha-se uma nova fase com comodidades que desconhecia. Andar num carro silencioso, com um chamado computador de bordo, uma mala grande, um banco confortável, uma rádio com todas as emissoras automaticamente definidas, ter a ligação entre o telemóvel e as colunas do carro. Enfim. E ser livre também é isto. É ter liberdade económica. Ter dinheiro na conta para poder pagar contas, poder comprar o que é preciso sem pensar muito. As minhas, as da minha mãe e as que vierem. Para mim, ter dinheiro na conta compra-me descanso e despreocupação. E tenho valorizado muito isso nos últimos meses.

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A minha máquina dos últimos anos está lá atrás.

13 de Fevereiro, 2022

Blue 2.0

Inês

Não estava bem no mood e não ter carro fez com que a viagem fosse mais demorada e fui ficando ansiosa por isso. Ficamos juntos esta noite e até foi fixe mas talvez a menos fixe de todas. Tu também não estavas com a cabeça no sítio e eu também não. Falhou ali alguma coisa, é verdade. À parte disso, estar contigo é sempre um momento que recordo com uma ponta de felicidade.

E hoje devia ter saído mais cedo, acho que esperavas isso. A vantagem dos encontros durante a semana é que, por algum motivo, a pressa traz mais fogo. E não há margem para ficar de manhã. É acordar e sair, não há desculpas nem para mim. Por muito que gostasse, tenho que sair e a escapatória é em bom.

Mas desta vez conversamos muito, durante horas até e consegui retirar coisas fixes das nossas conversas. Tu falas muito e às vezes cansas. Mas hoje explicaste-me que não basta constatar que ando stressada. Há que identificar possíveis causas, escolher uma e melhorá-la. Tentar mesmo. Tu fazes muito isso e eu não. Mas dito por ti tem outro impacto por isso prometo que vou tentar.

05 de Fevereiro, 2022

Blue

Inês

Este janeiro não tem sido particularmente positivo. Sobretudo estas últimas duas semanas. Em retrospetiva, apenas destaco o dia 21 de janeiro de 2022 como um dia muito agradável e ainda bem que o foi pois tratou-se do aniversário da minha mãe. Fez sessenta anos e apesar de todas as dificuldades dos últimos meses foi um dia feliz para ela. Fez um grande corte de cabelo e o jantar correu muito bem (e acreditem que isso é de valorizar!). À parte disso, as semanas têm andado bem mas talvez um pouco apáticas demais. Passo os dias no escritório a desejar que chegue às 18h para ir a correr para casa, vestir o pijama e enroscar-me com a minha gata no colo a ver o Big Brother. Chega à meia-noite adormeço, depois levanto-me e vou para a minha cama. Repito tudo no dia seguinte, com pitadas de ginásio três vezes por semana e uma grande preguiça a juntar tudo. Preguiça para ir às compras (e depois a alimentação é uma autêntica miséria), preguiça para lavar a loiça e arrumar, preguiça para tratar de assuntos e pôr a vida a andar para a frente.

Mas para a frente é exatamente para onde? Tenho sentido alguma dificuldade em entender isso. Não consigo ignorar o peso da minha idade: 25 anos. E o que mais valorizo hoje em dia é chegar a casa e brincar e trocar carinhos com a minha gata que é absolutamente o meu amor maior e sabe lá deus por quanto mais tempo serei sortuda por tê-la no meu colo. Pensar nisso dói-me e tenho pensado muito (também não sei muito bem porquê pois está tudo bem com ela). Tenho pensado em muita coisa pouco positiva. E tenho tido pesadelos. Um pesadelo em especial da semana passada não me sai da cabeça. Sonhei que eu, a minha mãe e a minha gata estávamos na cama no quarto (como sempre) e o nosso quarto era uma divisão de um avião e o avião caiu. Sonhei perfeitamente com a turbulência e com a queda em velocidade. Não acordei bruscamente com a queda. Não. No sonho sei que caímos, morremos e pessoas viam os nossos destroços e depois acordei de forma calma mas com uma sensação horrível e a lembrar-me claramente de todo o sonho. Importa dizer que nesse dia eu ia comprar bilhetes para ver o Harry Styles em Hamburgo na Alemanha. Um plano meio maluco mas (pensava eu) à minha medida. Quando acordei de manhã, ainda a pensar na estupidez de sonho, fui acordar a minha gata como habitual. Porém, nada habitual foi o facto de ela ter subido para a minha cama e se deitado nela em vez de andar a trás de mim como sempre até eu me ir embora. Ela raramente sobe para a minha cama e nunca o fez de manhã enquanto eu me arranjo. Quando ela o fez, nessa manhã, fiquei mais apreensiva. Vi ali o meu quarto, a minha cama e a minha gata. O quadro do meu pesadelo ao vivo e a cores. Depois à tarde conto à minha mãe estes episódios e ela diz-me que, curiosamente, o filme que está a dar na tv também é uma queda de avião. Bem, eu sei que são tudo coincidências mas, porra, o que é que vida me está a tentar dizer? Com isto, não comprei bilhetes nenhuns e estou um pouco apreensiva quanto a voltar a viajar e a sair de casa. Tenho que ultrapassar isto mas ainda não sei bem como. Depois voltei a ter outros pesadelos, também comigo a cair e aquela sensação mesmo angustiante, e também de a minha gata a morrer. E às vezes tenho dificuldade a adormecer e outras vezes acordo durante a noite. Mas, a pior sensação de todas, é sem dúvida a paralisia do sono. Há uns meses tive alguns episódios e estas semanas voltei a ter. Se há sensação horrível é essa. Acordar, querer mexer e não conseguir. Prefiro pesadelos a isso.

O que temos mais? A semana passou-se com a minha pálpebra a tremelicar diariamente e isto só me acontece quando guess what? stress. A última vez que tive assim uma fase do olho a tremer foi em 2019 quando mudei de casa e acabava a tese. E o meu período veio mais cedo uma semana também o que revela algum descontrolo hormonal. Bem, os sinais são claros. (só me falta começar ranger os dentes durante a noite para ter a trindade do stress em alta, e também as dores nas costas, porque os pêlos encravados já tenho). A única coisa que não é clara é a origem. Lá no escritório, o trabalho anda ok. Não há muito trabalho e o que há faz-se de forma tranquila. A única coisa que me stressou acima da média foi a minha coleguinha de gabinete: a Luisa. Eu tenho um carinho muito especial por ela, porém, ela tem de facto a capacidade de me stressar. E a razão é absolutamente estúpida mas é real: o puto do ar condicionado. Ora liga, ora desliga, ora abre a janela com o AC ligado, ora está frio, ora está calor, ora não consegue respirar, ora temos que arejar de manhã e ao longo dia dia por 5min por causa dos covids... Houve dias em que eram 10 da manhã e eu já não a podia ouvir! Só tinha dois temas de conversa (ou monólogo): covid ou AC. Admito que me deixou mesmo fdd vários dias, fechei a cara e só respiarava fundo para não lhe responder. Até que ela começou com uma conversa super fora sobre como eu estava a mudar e não precisava de mudar para as pessoas me levarem a sério na empresa e que as pessoas o que gostavam de mim era o facto de ser "menina" sempre a sorrir, etc. Enfim! O que a Luísa não entende é que a cara esteve fechada para ela porque eu canso-me das pessoas (how surprising) e especificamente cansei-me muito de a ouvir e preciso do meu espaço. Calei-me para não a perturbar porque sei que ela tem que lidar com as ansiedades dela e sofre menos se a puta da janela que está nas minhas costas estiver aberta. Deixa-me desconfortável mas aguento para que ela fique um pouco mais confortável mas exigir-me que continue alegre e contente é demais. E isso a Luísa não percebeu. Porque está tão focada nela própria e nos medos dela e nas ansiedades dela que não sabe ler os outros. Mas enfim. Isso já passou e esta semana foi deveras melhor. Stressei menos (a janela também abriu-se menos) e conversamos melhor entre as três do gabinete.

Mas enfim, além desta mini-série, não encontro mais motivos para stress. No geral, acho que a vida tem-me parecido mais blue. As noites custam mais a passar. Adormecer sozinha na cama e sentir todos os pensamentos a vir... Os pensamentos maus, tristes, nostálgicos. E deixou de ser exclusivo do domingo. É noutros dias e noites. Noites a mais. Talvez sinta alguma solidão. Pensar em todos momentos que estão para vir em que vou sentir tristeza. Pensar nos dias em que vou ficar sem mãe, sem gata, sem pai e sem irmão. Todas as notícias tristes que estou para receber. Pensar nos medos muito sublimes que estão a teimar em aparecer. Dormir nos braços de alguém custa menos. Vejam bem que o Lid enviou-me mensagem para combinarmos algo esta semana e nem lhe respondi! É a primeira vez que trocamos mensagens com o objetivo de planear algo e eu atraso o plano e nem sinto aquela ânsia de ir. Tenho que lhe dizer para combinarmos esta semana. Pode ser que uma noite com ele afaste os pesadelos e ajude a virar a página.