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Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

29 de Março, 2022

Uma montanha-russa de emoções e a melhor notícia de 2022 (e de 2021, e de 2020, e de 2019 e talvez da vida)

Inês

Há uma cena que me acontece demasiadas vezes. Chamam-lhe paralisia do sono e tem-me acontecido vezes a mais. A net diz que na vida de cada pessoa pode acontecer entre uma a duas vezes e a mim já me aconteceu esse número de vezes na semana... Nos últimos meses, ou talvez ano, aconteceu-me talvez uma dúzia de vezes. Sempre que acontece tem um impacto grande em mim no dia seguinte pois a sensação não é agradável. É mesmo muito desagradável, na verdade. Segundo a info científica, paralisia do sono não passa de um disturbio causado por horários de sono irregulares, curtos e potencialmente stress. Tento relacionar estes fatores comigo e o que dizer.. horários curtos e irregulares? Seis/sete horas todas as noites não me parece mau. E os níveis de stress já me pareceram muito piores. Portanto, sinto que não explica.

Este fim-de-semana numa conversa entre amigos calha de falar disto e do sentido da vida e da guerra e todas esssas coisas que atormentam e sou surpreendida com um novo conceito que explica uma parte destes enigmas: o espiritualismo. E pensar nisto depois de ter visto Behind Her Eyes? Opa, eu nem quero muito aprofundar porque achei interessante e sobretudo a ideia de haver uma lógica ou uma explicação ou uma tentativa de mas não é um universo que eu queira aprofundar. Assusta-me mais do que me relaxa. E por isso tem que haver outra causa.

Depois, o meu olho não pára de tremer e já acabou o magnésio e os 30 dias em que o médico disse para o tomar. Não resolveu. Porquê que o olho não pára de tremer? Vamos parar ao stress outra vez. Eu até acho diariamente que os meus dias são tranquilos mas depois penso para mim que aquela última semana de fevereiro em que rebentou a guerra eu me descontrolei completamente. Estava num loop de pensamentos negativos. E lá no escritório, a L. tem andado muito stressada e quando ela está assim não se cala um segundo e eu passo o meu dia a pôr e tirar fones e a mandá-la para um certo sítio baixinho. E quando foi para receber o carro lá na empresa também andei preocupada com isso algumas semanas, antes e depois, a pensar e repensar a forma como agia. E, por exemplo, a semana passada foi um autêntico carrosel de notícias. No mesmo dia recebo a melhor notícia de sempre e o meu chefe conta-me que o filho dele está seropositivo. No dia seguinte, vou pela primeira vez em serviço externo lá na empresa com os chefões e ao fim do dia fico a saber que o avô de uma amiga partiu. Depois chego a casa e a minha mãe conta-me entre lágrimas que apareceu uma coisa estranha no peito e tem que ir fazer exames de urgência a Lisboa. Claro, stresso também e só desejo que corra tudo bem (e pelo que se sabe so far não é nada alarmante). E eu que já passei duas semanas sozinha, na companhia dos meus pensamentos e da minha gata, vou passar mais uma. E, não fosse só isso, ela voltava amanhã para casa mas agora apanhou covid e, portanto, vou ficar mais uma semana sozinha! Enfim.. um corropio de emoções e sentimentos, é certo. E eu acho sempre que está tudo bem e que controlo tudo mas talvez estes sejam os sinais que me transmitem que o corpo e a mente sentem. Pelo menos, eu prefiro pensar que estas são as explicações lógicas.

E depois mas antes de tudo e qualquer coisa: o meu irmão contou-me que vai ser pai! E, acreditem, eu pensava que já não ia ouvir estas palavras! Eu sonhei tantas vezes com este momento. Adormeci tantas vezes a chorar porque pensei que não fosse acontecer. Lembro-me de dizer ao DC. que trocaria a minha possibilidade de ter filhos para que o meu irmão tivesse. É o sonho da vida dele. Não foi fácil chegar a este momento e eu duvidei que isto se tornasse realidade. As dúvidas eram muitas, as circunstâncias não ajudaram, muita coisa se colocou no caminho e, para meu espanto completo, na quinta à noite, ao telefone, ele diz-me que vai ser pai. Eu só sabia sorrir e queria contar a toda a gente. A partir daquele momento, este tornou-se o meu pensamento feliz. Vale tudo e não posso esperar pela hora de o ver com um bebé nos braços e o meu pai e a minha mãe com um bebé! Não consigo pensar num cenário mais bonito. Agora é só desejar que tudo corra bem, apenas normal, que os deixem ser felizes que ao fim de tanto tempo merecem. Este é sem dúvida o pensamento mais feliz de sempre.

22 de Março, 2022

Não há vacina contra a maldade, contra a guerra, contra a tristeza

Inês

Não entendo o conceito de guerra. Já o repensei centenas de vezes nas últimas semanas. Não entendo o conceito de vida pela pátria. Nunca vivi num país sem liberdade, sem democracia. Por isso não o entendo. E ainda assim fico emocionalmente destroçada cada vez que penso nisso. Cada vez que leio as notícias. Passado um mês, ainda não consigo ver as imagens sem me virem lágrimas aos olhos. Vivemos tempos em que a história é escrita. Primeiro, o covid e agora isto. E sabe-se lá mais o quê nos próximos dias, semanas, meses.

Este contexto de guerra atirou-me uma vez mais para a minha batalha interna em relação ao previlégio que é ter nascido onde e quando nasci. Pensar no previlégio é um assunto bastante em voga atualmente e tem sido repetitivo neste blog. Previlégio e sorte. Também já o disse que, muitas vezes enquanto crescia, não o sentia dessa forma e mesmo os últimos anos foram uma montanha russa de sentimentos. Porém, o azar ocidental é a sorte de outros mundos. E isto é como um murro que dou em mim própria várias vezes ao dia. Há uma culpa estúpida que teima em não passar e dou por mim a pensar que tenho que tornar essa consciência em ações. Fiz doações monetárias e materiais a associações e inscrevi-me na Bolsa de Voluntários do meu munícipio. Sinto que é insuficiente. E penso muito naquele que é o meu pequeno mundo. Durante alguns anos, ali na escola secundária e universidade, achei muito de mim. Achei que poderia fazer coisas incríveis: viajar muito com prepósitos solidários, estar inserida em grupos de ação, crescer e transformar-me numa adulta do mundo. Fiz algumas dessas coisas mas imaginem que até considerei no verão de 2017 ir para o sul de Itália como voluntária para um campo de refugiados. Era possível na altura. Depois acabei por não ir para um campo de refugiados e sim para um campo de férias de crianças numa cidade linda perto de Veneza. Entretanto, saí dessas esferas e entrei no mundo do trabalho numa empresa que não é uma multinacional. Cresci muito nesta empresa e tornei-me importante neste que passou a ser o meu universo. É outra escala daquela que eu previa. E a vida passou a ser uma To Do List diária, limpar e sujar e, garantir que os meus estão bem. E, tenho pensado muito nessa perspetiva. A minha responsabilidade neste mundo passou a ser garantir diariamente que a minha mãe está bem, a minha gata está estável, ver se o meu pai está bem-disposto e se o meu irmão se mantém no caminho de encontrar a felicidade. E ver a minha irmã a crescer que é das coisas mais maravilhosas. E, por um lado, penso que os meus sonhos de outrora não passaram de isso, sonhos, e tornei-me tão normal como todas as outras pessoas. Soa mal, eu sei. Mas não é mal intencionado. E penso que o dinheiro que hoje me facilita tanto a vida e dos que me rodeiam, não é meu mas sim está comigo temporariamente e é de todos os que me fizeram chegar aqui. E de todos os que não têm hipótese. É do mundo e de todas as pessoas que merecem e não têm.

Começar a falar da guerra e acabar falar de mim própria (uma vez mais) soa a egoísmo mas não há muito mais que se possa dizer em relação ao óbvio. Resta olhar para dentro e tentar o melhor no nosso pequeno mundo.

02 de Março, 2022

Pensamentos de Dias Negros

Inês

Desde quinta-feira que há um peso sobre os meus ombros e os meus pensamentos. É com constante incredubilidade e pesar que vejo as notícias, que as leio. Não me consigo afastar durante muito tempo apesar de saber que o devia fazer. "Os loucos anos 20" do século XXI são puramente isso: loucos. Começamos 2020 com o covid e agora começamos 2022 com a ameaça nuclear. Não sei o que pensar. Tudo é absolutamente irrelevante à beira desta realidade. Estará o futuro da Europa nas mãos de um homem que parece estar louco? Sinto medo, por todos. É um medo que paralisa. Penso sobre aquela coragem e admiro-a claro. Mas penso no que eu faria ou que pensava. Sei que o que está a acontecer é uma ameça aos nossos valores mais importantes como a liberdade e a democracia. Que Putin quer a Ucrânia e se a tiver, quererá o resto e o resto somos nós. Mas eu realmente não estaria disposta a dar a minha vida para continuar a ser portuguesa se me dissessem que eu iria passar a ser parte de Espanha. Entendo que nós portugueses temos o privilégio de o ser há séculos o que é radicalmente diferente do que acontece na Ucrânia e com outros países ex-soviéticos. Há um espírito de independência ainda muito fresco que, diria eu, nós não temos da mesma forma. Temos o nosso Portugal como absolutamente garantido. Não sei... Nunca pensei nestas coisas. No mundo em que vivia, não se resolviam coisas com violência mas sim com conversa e diplomacia, com maturidade. Estar num estado de tensão, de guerra fria, é absolutamente improdutivo para todos, para tudo. E o pior é que não se prevê uma forma que tudo termine em bem. Há egos. Não me parece que o Putin ceda de braços a abanar. Eu desejaria mais do que tudo. Podemos dar-lhe algo em troca de paz? Mas os ucranianos não aceitam em dar-lhe algo só porque sim e eu entendo essa perspetiva. Não é justo. Já ter perdido tanto e perder mais ainda só para não perdermos todos. Ainda assim, parece-me apenas o melhor cenário. Abre portas a outros eventos semelhantes, eu sei. Mas dar tudo a perder só para marcar uma posição parece-me a mim também tão imaturo. Não é, eu sei. É de enorme valor. Mas enfim. Nem tenho questões, nem tenho dúvidas. Tenho mais medo que quase tudo o resto. E parece tudo tão irrelevante. Sinto uma grande necessidade de ouvir pessoas a falar sobre isto a ver se alguém entende o homem, se há lógica, se há esperança em finais felizes. Continuo à procura, sempre na expectativa de abrir a internet e ler que este pesadelo acabou.