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Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

Teenage Dirtbag

Este blog é o meu diário. Mais para mim do que para vocês. Uma tentativa de arquivo de pensamentos. "Teenage" como quem diz... já são 25.

04 de Setembro, 2020

A diferença entre a retórica e a prática

Inês

Acredito que acima do status social e carreira está o nosso bem-estar e felicidade. Medem-se de formas diferentes e o bem-estar/felicidade são altamente subjetivos, apesar do ideal de status social ser mais homogéneo. Isto é, pertenço a uma geração onde o normal é ir para o ensino superior, estudar os 5 anos para obter a especialidade e encontrar um bom emprego ou vários até lá chegar. Tenho a sorte, diria até, de isto ser expectável para mim. Apesar disto, eu sempre acreditei e falei que não seria preciso nada disso se eu fosse simplesmente feliz nem que fosse a fazer a tarefa mais banal do mundo. Tenho ainda em mim o sonho de pegar na mochila e ir só, trabalhando e viajando, conhecendo mais mundo por essas estradas fora. E não consigo de forma nenhuma mitigar esse desejo em mim. Bem pelo contrário. Ter utilizado os meus limitadíssimos dias de férias para fazer algo deste género, só aumentou a minha vontade de ir. Fossem seis meses, um ano ou dois, fosse o que fosse. Morrerei infeliz se não o fizer. Se não tentar, pelo menos. Pode correr mal, sim. Posso voltar. Não importa. Nos meus pensamentos mais wild, digo para mim "inês, trabalhas há três anos, tens 24 anos, estás quase a consegur 10k na conta. logo que os tenhas, apresentas a carta, fazes a mala e bazas. 25 anos era uma idade bonita para fazer uma aventura dessas". O que são seis meses na vida de uma pessoa? Eu trabalho há três anos! Há três anos que a vida se resume quase que 90% às paredes desta empresa!

Mas bem, estou a afastar-me do meu objetivo com este post. Ainda em estudos, arranjei trabalho nesta empresa. Um estágio, dois estágios, sempre nas mesmas funções. Finalmente contrato! Se estar aqui me satisfaz? Não. Nada é perfeito, eu sei, mas vejamos: passo aqui nove horas do meu dia, tenho colegas que gosto muito, tenho liberdade e autonomia para trabalhar e tomar algumas decisões, tenho bons chefes, bom ambiente de trabalho no geral. Aconteceram algumas coisas que me deixaram chateada, sobretudo, no contexto de Recursos Humanos desta organização. É uma empresa familiar mas que emprega perto de 150 pessoas. A título de exemplo: estivemos em teletrabalho conforme nos foi solicitado, tiramos férias para "ajudar", descobrimos meses mais tarde que estivemos em regime de layoff total e tal coisa nunca nos foi informada. Recebemos por inteiro (em duas transferências) mas recebemos. E receber a diferença do que seria ganhar o valor do layoff é, tacitamente, o valor de "aceitar" e não reclamar seja o que for. No entanto, esse valor para mim são 40€! 40€ pagam a falta de transparência e honestidade? Pagam o facto de me ter sentido como um boneco em casa a trabalhar as mesmas horas, a mesma dedicação e disponibilidade? No meu entender não pagam. Como este, tenho outros exemplos nos quais a empresa coloca os seus próprios interesses acima de toda e qualquer coisa e trata os demais funcionários como meros peões. Sou demasiado exigente? "Esta empresa é boa: paga a horas e sais a horas desde que queias". Mas aceitar isto porque há pior? Conformar-me porque há pior? E a grande adversativa é: recebo 750€ ao final do mês. Todos os meus colegas de faculdade estão a ganhar mais do que eu e por larga distância, sempre acima de 1100€. Progressão de carreira? Ah... se me deram mais 20€ por ano é uma sorte. Devo contentar-me com os meus 750€ porque até é um bom ambiente, é perto de casa, já dou conta do recado, é seguro, tenho emprego e vamos entrar numa crise, e bla, bla, bla...? A nível social, tenho pressão para procurar melhor, porém, encontro-me num dilema.

Estrategicamente, planeei para mim manter-me na empresa até entregar a Tese uma vez que já sabia que conseguia manter as duas atividades. Depois de entregar, de forma uma vez mais estratégica, planeei manter-me mais quatro meses que me dariam acesso a um salário extra pelo trabalho desse ano. O plano era em março de 2020 começar a procurar alternativas. Ahahahahaha Covid. Lixou tudo. Passado seis meses continuo cá. Primeiro o teletrabalho e a insegurança geral. Depois verão e férias. Agora setembro. Hora de reavaliar. Para muitas pessoas parece uma loucura ter um contrato e um emprego estável e, nesta altura, aventurar-me num novo emprego que não conheço e que em pouco tempo me pode colocar numa situação de desemprego. Segurança vs. Evolução. Eu sei. Tenho pensado muito nos riscos. Penso muito mesmo. Até porque a nível familiar a situação não está fácil. Vivo com a minha mãe e ela está desempregada pelo que o meu emprego é das poucas coisas "certas" que temos. Sinto-me completamente refém desta situação. Gostava de arriscar sem ter tal preocupação. Não tenho filhos. Mas tenho mãe. Tenho encargos e por muito que me apetecesse não me posso simplesmente esquecer. Seria egoísta. Poderia simplesmente contentar-me que nem todos têm que "sonhar alto" e que, infelizmente, nem todos têm estruturas familiares passíveis de arriscar e viver certas coisas. A sociedade é injusta e também já falei disso aqui no blog. E poderia até ser muito pior. Eu tenho muita sorte. Tenho noção disso.

No entanto, não me sou de contentar. Sou tudo menos isso.

Há, então, aqui um dilema com várias vertentes: primeiro, esta situação familiar coloca-me numa situação vulnerável que detesto; segundo, o mercado pode dar-me melhores opções onde me sentirei mais valorizada (ou não, é um risco e algo a descobrir); terceiro, não estou 100% satisfeita na empresa onde me encontro, sinto-me desvalorizada e a fazer pouco uso das minhas capacidades; quarto, mas este simples emprego que me paga uma quantia modesta e suficiente não é o que basta para ser só feliz?

Pois, aparentemente não. Apregoou que o que basta é passar os dias satisfeita com o que faço mas, apesar de isso acontecer quase que diariamente, quando olho para trás sinto-me desiludida e frustada por não alcançar "grandes coisas" (seja isso o que for). Como por exemplo, ter ido 18 dias para o algarve sem grande rumo. Isto para mim foi uma grande coisa. Foi algo que eu olho para trás e orgulho-me de ter feito. Talvez eu seja ingénua ao pensar que basta pouco para ser feliz. Tenho pouco mas não me é suficiente. Quero mais. É da minha personalidade? Sou demasiado exigente? É pressão social? Não sei. Tenho mais dúvidas e perguntas que outra coisa. Sou muito adepta de pensar que mais vale arriscar do que viver frustado e acomodado, tenho demasiados exemplos que me provam isso mesmo. Mais vale fazer algo e correr mal do que ficar com a ideia do que poderia ter acontecido. Por outro lado, tenho plena noção que o "estrategicamente falando" pode não passar de uma desculpa para adiar a mudança, tanto porque fico com pena de deixar esta empresa e estas pessoas, como por medo do que vou encontrar mais à frente. Enfim... Este post não serve de muito além de me tentar mapear as ideias. Por via das dúvidas e deixando o rumo um pouco nas mãos da sorte, vou enviando CVs a tudo o que me parece minimamente interessante, ciente de que talvez sim ou talvez não me venha a deparar com um dilema ainda maior se/quando obtiver uma proposta doutro lado e me vir forçada a tomar uma decisão.

Acabei de me aperceber que este post é uma versão estendida do post "Sempre esta sensação que estou a perder..." onde repito algumas ideias. Bem, há coisas que ainda não mudaram.