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Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

15 de Agosto, 2020

Alvor 2020 #7 #8 #9

Inês

Ahahahaha Eu sou uma desgraça nisto da disciplina. Os últimos três dias foram um turbilhão pelo que nem sequer deu para ligar o pc.

No sétimo dia desta aventura (mas sexto de trabalho), fui explorar uma praia nova, de difícil acesso e muito menos gente. Cometi o erro de ir de chinelos de praia porque não sabia bem onde me estava a meter mas felizmente consegui chegar lá em baixo à praia sã e salva. À entrada da praia, estavam duas pessoas também sozinhas (depois acabamos por nos juntar), o R. e o Damião, que como viram que eu era nova ali, começaram logo a dar-me indicações sobre as grutas que eu podia passar e as paisagens incríveis que podia ver. Foi assim que conheci o R. que é o verdadeiro bacano. Parecia ligeiramente mais velho do que eu, surfista, moreno e loiro, super boa onda, daquele tipo de pessoa que fala literalmente com toda a gente por quem passa e não só o educado "bom dia" e "boa tarde", mete logo conversa, criando logo aquela aproximação "o caminho é por ali? andou quanto? são de onde?". Trabalha em digressões de música e eventos como técnico de audiovisuais. Ia fazer o regresso dos Da Weasel no Nos Alive. Demo-nos bem, na verdadeira boa onda. Fomos conversando e suspreendi-me com a história dele. Afinal, tem 37 anos (o que não parece meeeesmo nada), tem uma mulher e uma filha, mas anda a viajar sozinho de autocaravana pela costa. Uma dinâmica diferente. - Isto é o engraçado da vida e das viagens a solo. Não fazemos ideia do tipo de histórias que cada pessoa traz consigo e do quão diferentes podem ser do que estamos habituados. Acho fascinante conhecer pessoas assim. - Mas bem, voltando ao tema, eu como também tenho andado sozinha e sem grandes planos, fiquei satisfeita por finalmente estar a conhecer pessoas diferentes e a passar um bom bocado, então fui caminhando com ele, perdi o meu autocarro e até jantamos juntos na autocaravana dele (que se revelou ser o santuário da filha, cheia de desenhos). Apesar de sermos um homem e um mulher, não senti honestamente nada por ele. Sentia-me apenas bem e na boa com ele, como verdadeiros amigos e/ou companheiros de viagem - quando se viaja a solo é muito fácil encontrar este tipo de pessoa com quem se passa um par de horas e já se parece que se conhece há imenso tempo. Ainda por cima ele ter partilhado os pormenores da família dele de forma completamente aberta, retirou qualquer peso/tensão que pudesse existir. Eu estava super à vontade e confortável até. No dia seguinte (o meu sétimo dia de trabalho) era a minha folga e partilhei com ele o meu plano de ir ao percurso dos vales suspensos. Ele disse logo "bora, vamos os dois" e eu "tranquilo, fixe!". Fomos, na autocarava dele, e foi fantástico. Quase oito horas a caminhar, 20 kms nos pés. Percurso com alguma dificuldade mas com paisagens incríveis, de postal mesmo. Praias maravilhosas mas com gente a mais. Foi pena uma série de praias não ter acesso pedestre, tirando isso, estou muito satisfeita por ter feito o percurso, ida e volta. A companhia dele também foi boa. Apesar de ele ser daquele tipo de pessoa que fala, fala, fala e quase não se cala (e eu bem pelo contrário, ser uma boa ouvinte), continuamos a entendermo-nos bem. Até que ele diz "Inês, deixa a guesthouse e anda comigo, vamos fazer a costa e deixo-te em Lisboa dia 24" e eu - que estava a ficar desiludida com a minha experiência sobretudo por o trabalho estar a ser mais pesado do que o que eu esperava, não ter tempo para explorar outras zonas do algarve, e não estar a conhecer ninguém de novo - fiquei tãaaao tentada a ir, que se não fosse pela questão do compromisso que tenho para com a Cristina aqui na guesthouse, teria dito logo que sim e teríamos bazado nessa noite para Cacela Velha. E foi esta a primeira noite em que dormi verdadeiramente mal nesta casa. Estas situações acontecem e fazem-nos refletir se estas pessoas não foram colocadas na nossa vida para nós aproveitarmos. Porque, reparem, eu estava num momento down da minha experiência e aparece o R. a dizer-me para me juntar a ele, de autocaravana (que eu ADORO) a desbravar a costa. Era o meu cenário perfeito, não fosse o compromisso que eu estabeleci antes com a guesthouse. E depois penso no funny disto tudo: propus-me a esta experiência sem pessoas, sem amarras, e vejo que, mesmo assim, mesmo quando eu pensava que era só eu, afinal tenho uma grande amarra que nunca pensei que constituísse um problema. Mas a vida é feita de escolhas e eu escolhi estar aqui por duas semanas e não conseguiria chegar à beira da Cristina e abandonar o barco quando ela depositou em mim tanta confiança e me trata tão bem. Portanto, apesar de ter estado muito inclinada mesmo, a resposta teve que ser o não ao R. E custou-me imenso pensar que estava a deitar fora uma oportunidade tão boa.

Claro que falo disto apenas da perspetiva das oportunidades, experiências, pessoas, etc. Porque se analisarmos do ponto de vista prático e social, conforme as minhas amigas fizeram e logo me disseram, isto seria de loucos e a evitar a 200%. Eu bazar sem grande rumo com um cota que conheci há dois dias, numa autocaravana, num ambiente que não controlo, que não é o meu... Tudo me poderia acontecer. Tudo de bom e tudo de mau claro. Tenho bem a noção disso. No entanto, apenas posso dizer que efetivamente ele era um grande bacano, deixou-me mexer em tudo, explicou-me tudo, contou-me a vida toda dele, etc. Não considero o mau que poderia acontecer porque simplesmente não havia qualquer indício, apesar de entender o risco.

Entretanto, passei ainda o dia seguinte com ele, fomos a uma outra praia (de naturalistas... o que havia de calhar *facepalm*), partilhámos mais uma refeição e ele foi à vida dele e eu aqui permaneci na minha.

Agora vou à praia, tranquila, finalmente ler mais do meu livro e aproveitar o paraíso gratuito que o planeta nos deu que é o sol, a areia e o mar.

Meanwhile, provei gaspacho, torresmos e guacamole.