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Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

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08 de Dezembro, 2019

Joana e Desvantagens à Partida

Inês

A Joana é minha colega de trabalho. É, em muitos aspetos, igual a mim. Sobretudo no que é visível para os outros, lá na empresa. Começamos ambas como estagiárias. Licenciamo-nos na mesma cidade. Temos a mesma idade. Tornamo-nos grandes amigas. Adoro-a. Mesmo. Reparei há uns tempos que uma das razões para gostar tanto dela, é ela própria gostar tanto de mim e investir tanto e sem medo na nossa amizade. Eu sou mais reservada e mais cautelosa. E isso até podia afastá-la. Mas não. A Joana é super inocente e ingénua. Nunca vê mal em ninguém. Dá-se facilmente com as pessoas. Não tem filtros. Na verdade, ela tem tão poucos filtros que às vezes isso a prejudica. Porque trabalho é trabalho e há fronteiras que não deviam ser ultrapassadas neste meio. Mas, lá está, a Joana não tem maldade nenhuma dentro dela por isso nem imagina que outros possam ter. Ela vê a vida a cor-de-rosa porque nunca teve ocasião de ver outro tipo de cores. Sobretudo as mais negras. Que bom é viver assim. A vida dela sempre foi colorida com as melhores cores. Estabilidade, família, saúde, dinheiro que chegue, amigos até mais não, namorado...

É exatamente como a nossa vida devia ser. Ter este aspetos assegurados dá-nos liberdade para sermos o melhor de nós e fazer o melhor possível com a nossa vida. Dá-los possibilidade de ser mais felizes. Penso muito no contraste das nossas vida.

Houve uma decisão que mudou quase que completamente o rumo da minha vida. E não foi uma decisão minha. Trata-se do divórcio dos meus pais. Até aos meus 11 anos eu podia ser uma outra Joana: pais juntos, casa confortável. Estabilidade. Tudo gira à volta disso. A partir dos 11 tudo mudou. A minha mãe é frágil. Sempre foi. E com a separação, ficamos só eu e ela. Quase duas crianças. Mais tarde juntou-se o meu irmão e fez pausa na vida dele para que nós nos mantivéssemos... minimamente estáveis. Entretanto eu saí: faculdade e erasmus. Regressei e cá continuamos os três. Este ano a vida deu uma volta de cento e oitenta graus e eu tive que assumir uma série de responsabilidades novas. E aí é que me apercebi da injustiça que isto é, a um nível social macro. O meu ano foi passado a preocupar-me com a minha mãe, a investir nela, a garantir que ela estava bem porque infelizmente sozinha não se governa. Assumi isso porque o meu irmão já o fez durante mais de dez anos e agora o papel dele é seguir com a sua própria vida. Arranjar uma casa, construir uma família. Tem 37 anos e ainda não tem isso. Não estava acomodado. Estava preocupado. E preso. E ainda está. Mas agora é a minha vez de ficar presa. Não sei até quando irei conseguir porque sou muito diferente do meu irmão. Não se coloca em questão o quanto eu gosto da minha mãe. Amo-a mundos e mundos. Por isso é que não conseguimos ir embora. Não conseguimos descansar. A Joana também ama mundos e mundos a mãe dela. Só que o que nos diferencia é que a mãe dela está bem e a minha não. E isto é uma desvantagem na linha de partida da minha vida. Quase como uma condenação à partida. Claro que podia ser pior. Podia ter tido outro tipo de problemas ainda mais cedo. Poderia ter sido alvo de outro tipo de desigualdades sociais. Isto nem sequer é uma desigualdade social. Mas é, de alguma forma, uma castração social, percebem? Não me sei explicar completamente mas o que sinto é que quem tem dificuldades e preocupações com origem ascendente, terá mais dificuldades em ser feliz. Ou não o será tantas vezes. Ou não o será tão cedo. Quase efetivamente como uma desigualdade económica. Se te falta dinheiro em casa, quando começas a trabalhar, os rendimentos são para casa e não para gastar em lazer. Também acontece aqui. Há um nível tão elevado de preocupações e assuntos por resolver que não há espaço nem liberdade, ainda, para nos focarmos na nossa própria vida ou então tanto quanto seria socialmente expectável. E eu estou tão cansada, tão cansada. Só desejo, por tudo, que chegue esse momento em que posso olhar para trás e sentir que as coisas estão estáveis e que podemos finalmente voar mais leves. Só espero que isso ainda seja de facto uma possibilidade nesta vida. Se pudesse pedir um desejo para a minha vida, apenas um, a única coisa que pediria é que houvesse a chance de seres feliz, mãe. Só te quero feliz. É o meu sonho. A seguir a isso, tudo ficará bem.